sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Armando Alves distinguido pelo Casino da Póvoa
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
BONECOS DA GASTRONOMIA

Pelas 12 horas de sábado, dia 28 de Novembro, no Stand da Câmara Municipal, na Cozinha dos Ganhões, em Estremoz, terá lugar o lançamento do livro “Bonecos da Gastronomia” da autoria de Hernâni Matos, António Simões, Irmãs Flores e José Cartaxo.
O livro tem texto de Hernâni de Matos, poesia de António Simões, bonecos das Irmãs Flores, fotografia de José Cartaxo, grafismo de Carlos Alves. A edição é da Câmara Municipal de Estremoz.
No prefácio dizem os autores:
"A cultura popular estremocense é como um rio entre cujos braços é necessário estabelecer pontes de entendimento e de cooperação.
Nós tivemos consciência dessa necessidade e a partir duma certa ideia inicial, procurou-se uma simbiose mutuamente enriquecedora, sintetizada no tetranómio: gastronomia, barrística, poesia e fotografia.
Julgamos com essa experiência, ter conseguido realizar uma síntese dialéctica, traduzida pela unidade na diversidade.
O fruto dessa experiência é o presente livro, que dedicamos a todos aqueles que se interessam pela cultura popular e pela identidade cultural regional.
À Câmara Municipal de Estremoz, agradecemos o ter chamado a si a responsabilidade de editar o presente livro, que foi fruto de uma iniciativa autónoma de cidadãos, que deram as mãos para criar algo de novo.
Na sequência dum registo e duma reflexão sobre o nosso património cultural, a partir de hoje, o presente livro passará a fazer parte integrante desse mesmo património cultural."
Armando Alves é o vencedor da quarta edição do "Prémio de Artes Casino da Póvoa"

O artista plástico Armando Alves é o vencedor da quarta edição do “Prémio de Artes Casino da Póvoa”, com um prémio de 30 mil euros.
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O prémio, além da aquisição de uma obra do artista premiado, envolveu a publicação de uma monografia.
Armando Alves vai receber o prémio no próximo dia 18 de Dezembro, numa cerimónia a ter lugar no Casino da Póvoa, pelas 21 horas.
A obra adquirida a Armando Alves, que passa a integrar a colecção de arte do Casino da Póvoa, é uma escultura, sem título.
sábado, 24 de outubro de 2009
O OUTRO LADO - Um exemplo de mau jornalismo
Porquê?
A começar pela maneira como encaram e utilizam um instrumento que eu considero dever ser muito respeitável – a escrita.
As palavras devem ter conta, peso e medida.
Não se devem usar palavras a mais ou a menos, não só quando nos dirigimos a alguém ou quando alguém nos responde.
As palavras devem ter significado exacto e preciso, não devem ser ambíguas, pois apesar de serem metralha ligeira, as palavras são metralha.
Quando se pede a alguém para responder a um questionário, à laia de entrevista, não é bonito, não é ético, publicar a entrevista, fazendo um resumo desta, segundo a sua interpretação pessoal, sem autorização de quem deu a entrevista, tanto mais que ela foi pedida e dada por escrito. Entre vários motivos, porque não se deu ao entrevistado, limites nem de espaço, nem de palavras para a resposta, a não ser o limite na hora de entrega, que foi mais de 12 horas antecipada e que dava tempo para o entrevistado refazer as respostas se lhe tivesse sido solicitado.
O resumo não autorizado da entrevista respondida por escrito, ceifou toda uma série de mensagens positivas que o entrevistado pretendia fazer passar. A entrevista cortada à escovinha como cabelo de soldado raso, não é aceitável, com o argumento de ser dito à “posteriori” que as pessoas têm dado respostas curtas. O problema não é deste entrevistado, é dos outros entrevistados. Assim como é problema de imagem do jornal que mandou entrevistar e que publicou uma entrevista aparada rente. Melhor não faria a censura fascista, que não precisava de pedir licença a ninguém. Agora um jornal do Portugal Democrático, supostamente um jornal democrático, dá um mau exemplo de jornalismo, através dum bom exemplo do que é o mau jornalismo, que não respeita o texto dos outros.
Nós, que desta vez fomos O OUTRO LADO, não gostamos de posturas censórias e prepotentes como aquela que foi consumada na edição de 23 de Outubro passado. Posturas destas apenas poderão receber um comentário:
- Não passarão!
A pergunta é algo ambígua, podendo ser encarada em sentido restrito e em sentido mais ou menos amplo.
Numa perspectiva meramente local, a Torre da Menagem do Castelo de Estremoz, dominando tudo, altaneira e vigilante sobre a heróica planície alentejana, enche-me as medidas. É ela o mais forte ex-líbris desta cidade, a quem o nosso conterrâneo, o poeta Silva Tavares chamou um dia “cidade branca”, isto antes da permissividade do poder autárquico ter deixado a EDP conspurcar a alvura das nossas paredes com cabos negros que estendeu para mal das nossas necessidades energéticas. Isso conjuntamente com os ares condicionados colocados no exterior e as antenas de televisão, são os casos mais flagrantes de poluição visual que urge combater na nossa cidade, para que possa voltar a ser “cidade branca”.
Naturalmente que a Torre da Menagem do Castelo de Estremoz desperta em mim sinergias. Lembra-me a luta pela independência nacional no tempo de crise de 1383-1385, pois segundo o cronista Fernão Lopes, os partidários do Mestre de Avis, futuro D. João I, tomaram o castelo para a causa do Mestre. Lembra-me também e de acordo com o cronista Rui de Pina, que foi na alcáçova do castelo de Estremoz, que D. Manuel I investiu Vasco da Gama como almirante com a missão de descobrir a Índia, tarefa que desempenhou acompanhado por um pendão bordado por senhoras de Estremoz.
Naturalmente se encarar a sua pergunta no âmbito nacional, o monumento que mais gosto é o Castelo de Guimarães, não só pela sua arquitectura, como por estar simbolicamente associado à fundação do reino de Portugal. A minha identidade nacional teve origem ali. Não há Bruxelas ou Comissão Europeia que mo faça esquecer.
A nível planetário encanta-me o Pártenon de Atenas, na Grécia, que me faz lembrar que há dois mil e oitocentos anos, começaram naquele país, a civilização, a cultura e o pensamento ocidentais com os quais me identifico plenamente. Convém não esquecer que as tradições de justiça e liberdade individual que são as bases da democracia e da economia de mercado, nasceram ali.
2. Qual o seu herói de ficção favorito?
Realidade e ficção andam de mãos dadas e transmutam-se, numa época dominada pela realidade virtual. Daí que o meu herói seja um herói bem real. Seja-me permitida essa ficção.
A nível planetário, o meu herói é Spartacus, o escravo e gladiador que em 93 a.C. liderou uma revolta de escravos contra a classe dirigente da República Romana e que durante dois anos comandou 90.000 homens que de Roma apenas queriam a sua liberdade, o que era demais para os romanos, que por isso os massacraram com as suas legiões. Quando revejo o filme homónimo realizado em 1960 por Stanley Kubrick, visto sempre a pele de Spartacus, magistralmente desempenhado por Kirk Douglas. Sabem o que terá dito Spartacus ao morrer? – “Voltarei e serei milhões”. Acho que é o herói que melhor simboliza a luta pela liberdade, a liberdade de ser um homem livre e não um escravo.
A nível nacional, o meu herói é o Condestável D. Nuno Álvares Pereira, cuja acção foi fundamental nos tempos difíceis da crise de 1383-85, período durante o qual, fortes divisões no tecido social e político português, punham em perigo a própria identidade e independência nacional. Vencedor da Batalha dos Atoleiros, de Aljubarrota e de Valverde, o Condestável D. Nuno Álvares Pereira desempenhou um papel fundamental na resolução da crise e na consolidação da independência nacional face a Castela. Como herói ele é símbolo não só de coragem, de identidade e de independência nacional, como de desprendimento dos bens e amor aos mais necessitados. Em tempos que igualmente são de crise, é o melhor referencial de herói que se pode apresentar à Juventude.
3. Que local do mundo escolheria para viver?
Escolhi Estremoz e aqui tenho vivido. E é preciso gostar mesmo muito para aqui viver, pois por vezes não é nada fácil. É preciso resistir e lutar por tudo aquilo em que acreditamos. É preciso ter espírito de boxeur e encontrar forças dentro de nós para nos erguermos com mais força, sempre que nos atiram ao tapete. E sobretudo é preciso procurar a unidade e a convergência na acção, estabelecendo pontes entre os vários braços do mesmo rio.
4. Quem gostaria que desempenhasse o seu papel num filme sobre a sua vida?
Teria de realizar primeiro um “casting” para ver se havia actor à altura da responsabilidade do papel. Se houvesse decidiria, de contrário teria de ser eu a desempenhar o meu próprio papel. Seria decerto, argumentista, realizador e actor principal, como sou afinal na vida real.
5. Uma canção que goste de ouvir…
Sem dúvida que uma canção do saudoso Zeca Afonso, que soube conciliar como ninguém, a música popular e os temas tradicionais com a indispensabilidade de intervenção política. Como membro do clandestino Movimento Associativo da Faculdade de Ciências de Lisboa, tive o grato privilégio de conviver com o Zeca em acções de resistência ao regime fascista durante o período da crise académica de 1969 e na sequência dela. Não se esqueça que eu sou um velho esquerdista da geração do Maio de 68. Foi a luta estudantil que me deu consciência cívica e política e a canção de intervenção era para nós mobilizadora para a acção. Seria pois legítimo indicar uma canção de intervenção ao acaso, mas não o faço. Tenho necessariamente que indicar “Grândola, Vila Morena", canção composta e cantada por Zeca Afonso e cujo tema, como é sabido, versa a fraternidade entre os habitantes da vila alentejana de Grândola e que tinha sido banida pelo regime salazarista como uma música associada ao comunismo. Ora essa canção foi escolhida pelo Movimento das Forças Armadas para funcionar como segunda senha de sinalização do 25 de Abril de 1974, transmitida pela Rádio Renascença, para confirmar as operações militares. Essa canção é para mim emblemática, visto estar associada aos primórdios da Democracia em Portugal.
6. Qual a sua maior virtude?
Tenho consciência que é ser possuidor de uma inteligência transversal, incapaz de se deixar instrumentalizar e que é capaz de estabelecer pontes entre aquilo que considera ser braços do mesmo rio.
7. Qual o seu maior medo?
Talvez seja altura certa de mostrar algum humor: - “Tenho medo de acordar morto!”
8. Não me importava de me encontrar no chuveiro com…
…a minha mulher, o que já não acontece há algum tempo.
9. Com que figura histórica se identifica?
Penso que você me está a perguntar em que figura histórica me revejo. A única resposta possível, é em nenhuma, já que sou exemplar único. Todavia isso não me impede de admirar certas figuras da nossa História como tenho demonstrado ao longo da presente entrevista.
10. Um prato que come com prazer…
Será certamente um prato da rica gastronomia alentejana, que como sabe é património culinário legado pelos nossos ancestrais. É património para mastigar, para saborear e para lamber os beiços, a comer e a chorar por mais, pois barriga vazia não conhece alegrias...Por isso deve ser um prato cheio. É o nosso cancioneiro popular que diz:
É comer em prato cheio,
Beber vinho, se lh’o dão,
Fumar do tabaco alheio “
11. Esqueceram-se de cobrar as sobremesas do seu almoço. O que faz?
Perguntar se me estão a querer cativar como cliente. E para terminar, remato, dizendo que é a mim como cliente, que compete dar gorjeta – essa ancestral instituição portuguesa tão antiga como a cunha.
12. Tem algum hobby? Qual?
Julgo que você esteja a pensar que seja a Filatelia. Mas olhe que não. Para mim não se trata de um passatempo, mas de um ciência auxiliar da História. E fique sabendo que é pelo rigor e pela qualidade da minha intervenção e pesquisa pessoal que integro o Bureau da Comissão de Inteiros Postais da Federação Internacional de Filatelia, em cuja estrutura sou de momento o único português.
13. Qual a compra mais cara que fez?
Ainda não fiz. Como sabe, o dinheiro está caro e a altura é de crise.
14. Qual o seu acessório imprescindível?
Uma perna artificial que tem conhecido sucessivas versões desde que a uso há 45 anos ou seja desde os 18.
domingo, 13 de setembro de 2009
PINTURA DE MARIA HELENA ALVES
A iniciativa é da Associação Filatélica Alentejana e conta com o apoio da Câmara Municipal de Estremoz.
Reformada como professora aos 65 anos, que não da vida, Maria Helena resolveu começar a pintar com aquela belíssima idade. Onze anos depois, disponibilizou-se, mediante insistência de amigos, a fazer uma exposição retrospectiva de trabalhos seus.
Maria Helena é natural de Estremoz, onde os seus pais trouxeram a este mundo 11 filhos, cada um dos quais seguiu o seu percurso individual. A Maria Helena ao longo da sua vida, viria a ser professora do 1º, 2º e 3º ciclo, acarretando sempre consigo os genes da família Alves, que nos legou nomes ligados aos mais diversos âmbitos das Artes Plásticas: Armando Alves (primo), Aníbal Alves (irmão), Carlos Alves, Jorge Alves, Rui Alves e Miguel Alves (sobrinhos).
Maria Helena sempre gostou de desenhar e habituou-se a transportar consigo um bloco ou um papel onde ia rabiscando tudo aquilo que considerava interessante. Foi assim que começou a desenhar.
Quando aos 65 anos se reformou, fez contas à vida e resolveu arranjar uma actividade que lhe preenchesse o tempo e que simultaneamente lhe proporcionasse o convívio com outras pessoas. E como sempre se interessara pelas Artes Plásticas, decidiu que haveria de pintar. Procurou então quem a pudesse ensinar. Através de uma amiga, conheceu o professor Camol de Évora, cujas aulas começou a frequentar aos 66 anos. Ali começou a pintar a óleo sobre tela com motivos à vista ou a partir de fotografias por ela tiradas. Mas não ficou por ali. Mais tarde, começou a ter aulas de desenho e pintura com a professora Teodolinda Pascoal na Galeria Teoartis, em Évora, onde passou a ir novamente uma vez por semana, mas trocando agora a pintura a óleo, pela pintura a acrílico, por causa do cheiro.
No princípio fez cópias de trabalhos de grandes pintores, os quais admirava, afim de aprender as técnicas das suas pinceladas, bem como as cores e os motivos utilizados. Sempre se interessou pelo período impressionista e dentre os pintores deste ciclo, destaca Monet e Van Gogh. Deles efectuou várias cópias, assim como de outros como Renoir, Cezanne, Turner, Degas, Berthe Morissot e Klimt Muitas vezes substituiu os materiais usados pelos pintores, os óleos por pastel ou aguarela ou vice-versa. Pensa ter aprendido bastante com as experiências que então foi levada a empreender.
Maria Helena dispersa-se pelas múltiplas modalidades da pintura, já que é muito curiosa e tudo gosta de experimentar, o que a conduz a não se especializar em nada, em particular.
No que respeita a temas, enquanto pintou a óleo, Maria Helena centrou-se na pintura de montes alentejanos, paisagens e naturezas mortas ou com o modelo à vista ou partindo de fotografias que ia tirando. Na pintura a acrílico, também se baseia em fotografias, que podem ou não ser suas. O desenho é à vista ou de modelos no atelier ou obtidas em saídas à rua. Por vezes estes desenhos são um ponto de partida de futuras pinturas.
A paisagem e as naturezas mortas constituem um tema dominante e transversal às modalidades de Artes Plásticas que cultiva. A sucessão porque as começou a cultivar foi: desenho, óleo, acrílico, aguarela e pastel de óleo ou seco. Presentemente e tirando a pintura a óleo que abandonou pelo motivo apontado, todas as restantes modalidades coexistem, já que Maria Helena é incapaz de se confinar a uma única e sente necessidade de mudar para não se desmotivar. Apesar de tudo, a pintura a acrílico é dominante e impõe-se em relação às restantes. Se por um motivo de força maior fosse forçada a ter que optar por uma única, talvez escolhesse o desenho e o pastel que, no fundo, também é desenho.
Para Maria Helena, desenhar ou pintar é uma forma de perpetuar, a seu modo, a sensação especial e espacial, que encontra numa paisagem, numa taça de fruta ou numa simples flor recolhida à beira do caminho. Quando desenha ou quando pinta, sente muita satisfação ou, por vezes, frustração quando acha que não consegue exprimir aquilo que vê.
Gosta muito das cores primárias e nestas tem preferência pelo amarelo, ainda que isso tenha que ver com o motivo. Em contrapartida, nunca utiliza o preto. Em relação aos materiais, está agora a utilizar mais o acrílico, visando aperfeiçoar esta técnica.
O actor central da sua pintura é unicamente aquilo que vê, já que não se aventura pelo domínio do abstracto, uma vez que segundo diz, precisaria não só de muito mais escola, como também de talento, que modestamente diz não possuir.
Continua a frequentar a Teoartis, pois o convívio com colegas é para si um incentivo ao trabalho. Se ficar em casa, há sempre mil e um motivos que lhe roubam o tempo e tiram a vontade de pintar. No entanto, durante as férias, com mais tempo livre, é com imenso prazer que se dedica mais à pintura.
Maria Helena não se considera uma artista plástica, mas apenas uma pessoa que ocupa os seus tempos livres com várias actividades, das quais ressalta a pintura. É uma insatisfeita com o seu trabalho e diz ter uma perfeita noção do que ele vale. Tem prazer no que faz e isso basta-lhe. Segundo ela, tudo se aprende fazendo e só tem pena de ter começado tão tarde e de saber que não lhe vão restar muitos anos para aprender mais, de modo a conseguir sentir-se mais segura naquilo que faz. Aprendizagem, descoberta e experimentação são na sua óptica, passos essenciais para progredir na pintura.
Ao contrário do que acontece nalguns casos, Maria Helena nunca teve professores ligados às Artes Plásticas, no Ciclo, no Ensino Secundário e durante a sua formação académica, que a influenciassem nessa área e que tivessem desempenhado um papel marcante em relação a ela.
Se tivesse que se situar numa corrente artística ou numa escola artística, diz que seria realista, uma vez que não se consegue afastar daquilo que vê.
Quanto aos artistas plásticos nacionais que mais aprecia, destaca os nossos conterrâneos Rogério Ribeiro e Armando Alves, bem como Vieira da Silva, Manuel Ribeiro de Pavia e Cipriano Dourado. Estrangeiros, para além dos citados, também Manet, Goya, Miguel Ângelo, Velasquez, Vermeer e muitos, muitos outros.
Maria Helena é uma eterna insatisfeita com tudo aquilo que faz, pelo que de tempos a tempos sente necessidade de se testar. Daí a importância que confere às exposições. Afasta então a insegurança que diz sentir dentro de si e aceita ouvir a opinião franca dos outros, na plena convicção de que seja sempre uma opinião crítica, que lhe permita aperfeiçoar o seu trabalho.
Ainda que não tenha presente na sua memória, todas as exposições em que participou, nem datas, nem locais, sempre nos conseguiu dar algumas indicações. Assim, as Exposições Colectivas aconteceram pelo menos na Galeria do Inatel (Évora), na Galeria Teoartis (Évora), na Sociedade Recreativa e Popular Estremocense (Estremoz) e na Biblioteca Municipal de Sousel. Já as Exposições Individuais tiveram lugar na Biblioteca Municipal do Redondo e no Até Jazz Café (Estremoz), bem como esta agora no Centro Cultural, à qual outras decerto se seguirão, pois a Maria Helena não é mulher para estar parada.
domingo, 30 de agosto de 2009
Exposição retrospectiva de trabalhos seus e que será inaugurada, pelas 17 horas de sábado, dia 12 de Setembro, na Sala de Exposições do Centro Cultural Dr. Marques Crespo, na Rua João de Sousa Carvalho, em Estremoz.
A iniciativa é da Associação Filatélica Alentejana e conta com o apoio da Câmara Municipal de Estremoz.
A Exposição estará patente ao público até ao próximo dia 25 de Outubro, podendo ser visitada, de 3ª feira a sábado, entre as 9 e as 12,30 horas e entre as 14 e as 17horas.
Uma Exposição a merecer a sua visita.
COMPAREÇA NO ACTO INAUGURAL PARA O QUAL ESTÁ DESDE JÁ CONVIDADO.
TRAGA OUTRO AMIGO TAMBÉM!
terça-feira, 25 de agosto de 2009
400 ANOS DEPOIS
... O mais famoso deles, o Hubble, nem está no planeta. Em órbita desde 1990, o telescópio já enviou milhares de imagens do espaço, como esta, na semana passada, da Nebulosa do Caranguejo, a mais de 6 mil anos-luz da Terra. Algo quem nem Galileu sonharia.
Poema para Galileo
Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florenca.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria
Eu sei... Eu sei...
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!
Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.
Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência as coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar -- que disparate, Galileo!
-- e jurava a pés juntos e apostava a cabeca
sem a menor hesitação --
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.
Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.
Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilizacão.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas -- parece que estou a vê-las --,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.
ANTÓNlO GEDEÃO
terça-feira, 14 de julho de 2009
O BULDOG DE DARWIN
Talvez à primeira vista não se perceba, porque é que num blog em que é suposto falar-se de exposições, aparece o seu autor, com um nariz de buldog, quando o Carnaval já passou há muito. Mas tenham calma e vão perceber porquê.
Ciência na Rua
Nos passados dia 11 e 12 de Julho, entre as 17 e as 24 horas, Estremoz foi palco de CIÊNCIA NA RUA, subordinada ao tema EVOLUÇÃO, onde a Ciência e a Arte se juntaram na recriação de alguns grandes momentos ligados à EVOLUÇÃO DA VIDA NA TERRA.
A iniciativa, que contou com a presença do Ministro da Ciência e Tecnologia, Mariano Gago, foi organizada conjuntamente pelo Centro Ciência Viva de Estremoz, pela Câmara Municipal de Estremoz e pela Escola de Ciência e Tecnologia da Universidade de Évora, que estão de parabéns pela qualidade e pelo impacto do evento, que foi do agrado da população.
Sete grandes etapas evolutivas da vida na Terra foram levadas a efeito em sete locais públicos da cidade. Nestas recriações, o Teatro, a Dança, a Música, o Circo e a Magia do Fogo foram formas de expressão privilegiadas, que deram as mãos à Matemática, à Física, à Química, à Geologia e à Biologia. Na verdade, associado a cada momento havia um "quiosque da ciência" onde experiências, ao dispor do visitante, permitiam que este se aperceba da explicação científica do fenómeno.
A abertura de Ciência na Rua teve lugar, no sábado, pelas 17 horas, frente ao Centro Ciência Viva de Estremoz. Aí o grupo de teatro inglês “DESPERATE MAN”, apresentou o espectáculo “DARWIN E DODO”, parcialmente bilingue e que muito agradou aos espectadores, pela elevada comicidade, aliada ao rigor da divulgação cientifica do texto que lhe servia de suporte.
Um dos actores, pivot de todo o espectáculo e de grande comicidade (http://www.desperatemen.com/?p=66 ) fazia de Charles Darwin, o criador da Teoria da Evolução e o outro fazia de DoDo, uma ave extinta. Pois bem, Mister Charles Darwin, logo de início distribuiu papéis pelo público. Três crianças fizeram de aves com três diferentes bicos e eu que estava na primeira fila, quando dei por mim, mister Charles Darwin tinha-me enfiado um nariz de buldog ao mesmo tempo que me dizia. – You are Mister Huxley!
Como homem ligado á cultura que não ao espectáculo, só tinha uma saída possível: ficar com o nariz de buldog, enfiado para o que desse e viesse. E foi o que fiz e ali estive durante cerca de meia hora, com alguma dificuldade em respirar por um nariz que não era o meu, mas divertido e os que me rodeavam ainda mais. O gozo maior era para quem passava e não sabia bem o que se estava a passar, apenas via uma exposição da minha pessoa com o nariz de buldog.
Daí a razão deste post, a que dei o título de O BULDOG DE DARWIN. Depois, socorri-me da Wikipédia, para vos dar conhecimento de quem era este buldog.
O Buldog de Darwin
Thomas Henry Huxley (Ealing, Middlesex, 4 de Maio de 1825 — Eastbourne, Sussex, 29 de Junho de 1895) foi um biólogo britânico que ficou conhecido como "O Buldogue de Darwin" por ser o principal defensor público da teoria da Evolução de Charles Darwin e um dos principais cientistas ingleses do século XIX.
Biografia
Huxley nasceu na vila de Ealing, próximo de Londres, sendo o sétimo dos oito filhos de George Huxley, um professor de matemática em Ealing, em cuja escola Huxley teve os seus únicos dois anos de educação infantil formal. Em 1835, a sua família mudou-se para Coventry, onde estudou vorazmente em casa. Aos 15 anos, começou a estudar Medicina inicialmente como aprendiz, depois como bolseiro do Hospital Charing Cross. Aos vinte, passou nos exames da Universidade de Londres, ganhando a medalha de ouro para a Anatomia e Fisiologia. Em 1845 (ainda aos 20 anos), publicou o seu primeiro texto científico demonstrando a existência de uma camada interna nos cabelos. Essa camada passou a ser conhecida como camada de Huxley.
A viagem no H.M.S. Rattlesnake
Aos 21 anos, alistou-se na Marinha Inglesa e teve a oportunidade de servir como assistente de cirurgião à bordo do H.M.S. Rattlesnake, que partia com a missão de cartografar a costa da Austrália e Nova Guiné, importante rota comercial ainda pouco explorada pelos ingleses. Durante a árdua e perigosa viagem, teve a oportunidade de encontrar, descrever e enviar à Inglaterra grande quantidade de novos espécimes animais, além de conhecer a jovem Henrietta Heathorn, de quem ficou noivo e com quem se casou em 1855.
O retorno à Inglaterra
Quando voltou à Inglaterra, em 1850, os seus relatos e espécimes já o haviam tornado um célebre cientista e a fama permitiu-lhe o acesso à nata da ciência inglesa, incluindo Charles Darwin. Devido à sua origem humilde, precisou se destacar pela inteligência e empenho para conseguir oportunidades. A necessidade crescente de obter fonte de rendimentos suficientes para suas actividades e para cuidar da esposa e família que chegou a oito filhos, era muito maior do que a oferecida a cientistas numa época em que a Ciência era motivo de orgulho nacional, mas não era considerada uma profissão e sim uma actividade desenvolvida por homens da elite, sustentados pelas próprias fortunas. Assim, Huxley precisou de se candidatar a cargos com salário disponível para cientistas, muitas vezes acumulando diversas funções e responsabilidades. Assim, apesar das dificuldades financeiras, tornou-se progressivamente mais respeitado não apenas pelos seus méritos científicos, mas pela sua crescente influência que abrangeu diversas áreas da cultura inglesa, incluindo literatura, religião e até a reforma no sistema educacional.
Huxley e a Teoria da Evolução
T.H. Huxley foi um dos poucos confidentes a quem Charles Darwin expôs suas ideias evolucionistas antes da publicação da Origem das Espécies e um dos principais responsáveis pelo sucesso da sua publicação. Logo após conhecer e concordar com a Teoria da Evolução (apesar de não aceitar várias das ideias de Darwin, como o gradualismo), iniciou a estratégia eficaz de substituir na cúpula científica inglesa, graças à sua influência, cientistas idosos e com ideias ultrapassadas por uma nova classe de cientistas jovens e talentosos, abertos a novas ideias e prontos para uma "revolução" científica. Em 1858, quando Darwin foi orientado (em parte por Huxley) a elaborar rapidamente um artigo científico sobre a Teoria da Evolução em conjunto com Alfred Russel Wallace, que havia chegado independentemente a conclusões semelhantes às de Darwin, para a Linnean Society, em Londres. A comunidade científica já era muito diferente e permeável à mudança. De facto, apesar da resistência esperada, a mudança de paradigma causada pela Teoria da Evolução coincidiu com uma ampla mudança na ciência inglesa.
O Buldogue de Darwin
Como Darwin nunca foi um grande orador e preferiu morar no interior da Inglaterra, longe dos debates e repercussões da sua teoria, coube a Thomas Huxley o papel de principal defensor da Evolução. Orador perspicaz e feroz, além de um humor cínico, valeram-lhe o apelido. Como disse ao estudante Henry Fairfield Osborn, "Você sabe que eu tenho que tomar conta dele – de facto, eu sempre tenho sido o buldogue de Darwin".
O mais importante debate sobre Evolução ocorreu em 30 de Junho de 1860, na Universidade de Oxford, entre T. H. Huxley e o seu principal opositor, o Bispo Samuel Wilberforce, acompanhado de seu acólito Richard Owen. Com o tema "Darwinismo e Sociedade", a Universidade precisou de à última hora, transferir o evento para uma sala maior, graças a um público estimado entre 700 a 1.000 pessoas. Apesar de não ter sido transcrito no momento, as descrições foram de grande vitória para Huxley, no que se considera ser um dos grandes debates científicos da História. No momento mais conhecido da discussão, Samuel Wilberforce teria perguntado se foi "através da sua avó ou do seu avô" que ele "alegava a descendência de um macaco". A resposta de Huxley foi clara e ovacionada pelo público: "Se a questão é se eu preferiria ter um macaco miserável como avô ou um homem altamente favorecido pela natureza que possui grande capacidade de influência mas mesmo assim emprega essa capacidade e influência para o mero propósito de introduzir o ridículo numa discussão científica séria, eu não hesitaria afirmar a preferência pelo macaco".
Não foi apenas um debate científico, mas também um confronto entre Ciência e Religião. Darwin mais tarde escreveu: "De tudo o que escuto de várias partes, parece-me que Oxford fez um grande bem ao assunto. É de grande importância mostrar ao mundo que uns poucos homens de primeira, não tem medo de exprimir a sua opinião.". Anos depois, disse ao professor Marsh: "Huxley é o rei dos homens", que contou ao próprio Huxley, que respondeu: "Agora você pode entender por que todos nós que conhecemos Darwin temos grande afeição por ele, e quando seus inimigos insultam esse nobre homem, por que é que é meu direito ser tão duro na sua defesa.". E foi o mais fiel defensor de Darwin até após a sua morte em 1882, quando liderou com sucesso uma campanha para que a Inglaterra prestasse a Darwin o maior reconhecimento que um inglês pode receber: o direito de ser enterrado na Abadia de Westminster.
Legado
Talentoso popularizador da ciência, criou o termo "agnosticismo" para descrever o seu posicionamento acerca da crença religiosa. Foi também creditado por inventar o conceito de biogénese, uma teoria que diz que todas as células provêm de outras células.
Ao longo da sua vida, Huxley contribuiu também para a Embriologia, Taxionomia e Morfologia. Também ajudou a desancar o Lamarckismo e a sua teoria do mecanismo da evolução.
Teve uma grande disputa científica com Richard Owen, que dizia que o ser humano era claramente distinto dos demais animais por causa da estrutura anatómica de seu cérebro. Huxley negava esta afirmação e refutou-a em diversos artigos, demonstrando que ela era na verdade inconsistente com factos conhecidos. Consolidou este assunto na obra Evidence as to Man's place in Nature (1863).
Durante 31 anos, Huxley ocupou a cadeira de História Natural na School of Mines, onde se ocupou de pesquisas em paleontologia.
Em 1870, Huxley saiu do mundo das pesquisas científicas para assumir compromissos políticos. Foi secretário executivo da Royal Society de 1871 a 1880, e presidente desta sociedade de 1881 a 1885.
A sua saúde entrou em colapso em 1885. Em 1890, mudou-se de Londres para Eastbourne, onde, após uma enfermidade dolorosa, morreu.
Huxley é o patriarca de uma distinta família de académicos britânicos, incluindo os seus netos Aldous Huxley (o escritor), Sir Julian Huxley (o primeiro director da UNESCO e fundador do World Wildlife Fund), e Sir Andrew Huxley (o fisiologista e vencedor do Prémio Nobel). Foi laureado com a medalha Wollaston concedida pela Sociedade Geológica de Londres, em 1876.
Epílogo
Digam-me lá se a importância desta figura da Ciência não justifica plenamente a minha exposição com um nariz de buldog durante cerca de meia hora...E esta, hein?
quarta-feira, 1 de julho de 2009
O PINTAR DAS SOMBRAS
CONVITE
No final será servido um cocktail.
Contacto 91 060 01 88
Jardim (artes plásticas 1996) exposição na Quinta de S. Miguel, Ar.co, Almada;
Cartaz e Folheto permanentes (pintura e design, 1998) do Museu de Ciência da Universidade de Lisboa;
Moldura (instalação 1998) desenvolve projecto com a compositora Diana Ferreira, com apoio da Fundação Jacinto Magalhães na sala Hélène Beauvoir, Universidade de Aveiro;
Serviço de Chá (design 1998, 1º prémio) em parceria com Filipe Saraiva (arquitecto), concurso de design promovido pela Lipton e Spal;
Jangada de Medusa (performance 1999), Ar.Co no Park of the Future, Amesterdão, coordenada por Francisco Tropa;
Unestidade em tudo (instalação 2000) na exposição bolseiros e finalistas, Ar.Co na Cordoaria Nacional, Lisboa;
Casa (arquitectura 2003), Experimenta Design, Objectos Cruzados na F.I.L., comissariada por Delfim Sardo;
Execuivel e a Miragem (artes plásticas 2003) projecto desenvolvido com bolsa de Criação Artística da Fundação Calouste Gulbenkian (Serviço de Belas-Artes);
Participa no Prémio E.D.P com Palmilha (Instalação 2004) no C.C.B, comissariado por Nuno Faria;
Performance (2005) é convidado a participar na exposição Ending Lisbon, espaço Mabooki, comissariado por Alexander Gerner;
De três Dimensões para una (telas e instalação 2006) Museu Nacional de História Natural, Sala Bocage;
Em 2007 com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, desenvolve o projecto uma Dimensão (pintura) em Óbidos (galeria Nova Ogiva), Lisboa (Museu Nacional de História Natural, Sala do Veado) e Tavira (Casa das Artes);
Em Março 2008 expõe uma Dimensão no Inverno (pintura), Lisboa (Museu Nacional de História Natural, Sala do Veado);
Em 2008 participa com 2 peças de exterior no Junho das Artes - Arte Contemporânea em Óbidos.
Em Abril 2009 expõe Amanhã e Sieben Minutene (pintura), Lisboa (Museu Nacional de História Natural, Sala do Veado);
Em Julho 2009 expõe O Pintar das Sombras (pintura), Estremoz (Centro Cultural Dr. Marques Crespo);
domingo, 14 de junho de 2009
HOMENAGEM AO ALENTEJO

HERNÂNI MATOS
quinta-feira, 11 de junho de 2009
AS MINHAS MEMÓRIAS DO ESPÍRITO SANTO (Hernâni Matos)
Nos anos 50 os meus pais mudaram-se para uma casa hoje inexistente na rua da Misericórdia, mas pelo Largo continuei a viver e a brincar em permanência até 1956, ano até ao qual fiquei na casa dos meus tios, situada no número 17. A vida e os fluxos humanos que por ali se processavam nos anos 40-50 são-me pois familiares.
A passagem do aguadeiro e do leiteiro, a passagem das lavadeiras para o Lavadouro Municipal, as carradas de lenha para a padaria do Beliz na rua da Levada, as entradas e saídas para a fábrica do Alves e Martins na Horta do Quiton, ao ritmo da sirene, as manobras miranbolantes dos camiões gigantescos da Urmal para conseguirem transpor os portões da Horta, as idas das meninas do asilo para a Escola Feminina do Caldeiro, assim como o trânsito dos carros de tracção animal, cuja passagem por ali era uma constante. A vida era muito, mas muito mais difícil do que é hoje. Ainda não havia água canalizada e muita gente não tinha iluminação eléctrica. Nas cozinhas, as mulheres trabalhavam com fornalhas a carvão ou fogareiros a petróleo e, de vez em quando, os bicos lá se entupiam devido às impurezas. A esmagadora maioria das casas não tinha casa de banho, tomava-se banho completo uma vez por semana, aos domingos, que era o dia de ver a Deus e os despejos, incluindo os dos penicos, faziam-se em pias, das quais muitas casas só tinham uma.
Não havia frigoríficos nem arcas congeladoras, nem supermercados, nem grandes superfícies, nem tão pouco sacos de plástico, pelo que os frangos nasciam no quintal de quem os tinha.
As idas ao talho e à praça do peixe eram por isso mais frequentes, desde que em casa houvesse dinheiro.
Nas idas ao mercado, levavam-se talegos, cestos de vime e canastras para transportar as compras. Quando se ia ao pão levava-se uma bolsa de pano. Nas mercearias, o grão, o feijão, o arroz, o açúcar, a farinha e o café eram vendidos a granel e embalados em cartuxos de papel. O sabão era vendido à barra, mas podia-se comprar qualquer quantidade que era embrulhada em papel de jornal. Para se comprar vinho, azeite ou petróleo, levava-se de casa uma garrafa provida da respectiva rolha.
Não havia Televisão e a Rádio era senhora e rainha com os seus folhetins, o futebol aos domingos e a Volta a Portugal em Bicicleta, que nos faziam vibrar com as proezas dos eternos rivais Zé Maria Nicolau (do Benfica) e Alfredo Trindade (do Sporting).
A vida era dura, a Igreja Católica tinha uma influência muito maior na vida das pessoas que tem hoje e não se podia falar de política. Política só podia haver uma, a do único partido legal que era a União Nacional. Quem fosse contra isso, ia parar a Caxias como aconteceu ao carpinteiro José Lopes ou ao estofador Binadade Velez. E havia quem se encarregasse de nos ensinar que a vida tinha que ser assim e ficarmos contentes com aquilo que Deus nos deu.
Antes de em 1953, ir para a Escola do Caldeiro frequentar a 2º classe, andei na escola da Menina Teresinha, situada no nº1 do Largo, nos baixos da casa onde morou o Poeta Sebastião da Gama. Do Largo ia obrigatoriamente para a catequese na Igreja de Santo André e para a formação nacionalista e para-militar na Mocidade Portuguesa, na Rua da Cruz Vermelha. Na Igreja de S. Francisco fiz a primeira comunhão, a comunhão pascal e a solene, assim como a crisma, tendo chegado a ensinar doutrina aos mais novos, o que só foi perturbado com uma ruptura epistemológica aí pelos 12 anos, fruto da influência que a aprendizagem da História e das Ciências Naturais exerceram em mim e a que não terá também sido estranho, o convívio com dois velhos republicanos de 1910, o ferroviário Francisco Baptista e o Cândido ferrador. E se na Igreja tive algum êxito, ainda que efémero, até me tornar ateu, na Mocidade Portuguesa fui um completo atraso de vida, nunca passei da cepa torta, nunca passei de Lusito e nunca cheguei a Chefe de Quinas. Aquela coisa das formaturas e do marcar passo e do marchar e de fazer a saudação de braço levantado era uma grandessíssima chatice e eu não atinava com aquilo. Apenas me dava gozo a ginástica, o voleibol e o basquetebol. Mas o que é um facto, é que os tempos eram outros e as procissões e as paradas atraíam muito mais pessoas que hoje.
Grandes momentos na cidade eram as feiras como a de Maio ou Festas como as de Setembro.
No final dos ciclos de produção como as mondas, as ceifas ou a azeitona, circulava mais dinheiro pelas freguesias e pela cidade, mas em geral era tudo muito apertado, pois a maior parte do trabalho era sazonal, havia desemprego, salários de miséria e pior que tudo, tinha de se ter o bico calado.
Em alturas de crise era vulgar ver grupos de homens desempregados que iam de loja em loja, frente à qual um se destacava dos outros e descobrindo a cabeça, em sinal de humildade, pedia esmola em nome dos demais, agradecendo no final com um “Deus lhe pague”. Eu assisti a isso e sentia um nó no estômago.
Frente à Câmara e junto ao Café do Santos paravam os homens sem trabalho, sempre à espera de que alguém os contratasse, nem que fosse para uma única tarefa. Era então, bem amargo, o pão que Deus amassava.
No Adro do Largo do Espírito Santo funcionava a Sopa dos Pobres, que era para muitos a única tábua de salvação possível.
E esta era em traços gerais, a realidade nua e crua, não só no Largo do Espírito Santo como noutras zonas da cidade.
Permitam-me agora que vos conte algumas particularidades sobre a vida no Largo do Espírito Santo.
Ali havia um chafariz junto à fonte que ainda lá existe. Ali, eu e a miudagem do meu bando, chapinhávamos na água entre duas brincadeiras. O chafariz e a fonte eram o nosso regalo no pino do Verão. Nos anos sessenta o chafariz foi sacrificado ao pseudo-progresso, pois foi arrancado a fim de facilitar a circulação automóvel. Este foi um dos crimes de que primeiro me lembro terem sido cometidos nesta cidade. Hoje, o largo é um imenso parque de estacionamento e no local onde existia acolhedor um chafariz de água límpida, chegaram a jazer há anos, dois imundos contentores de lixo, ocupando praticamente o espaço que dantes era ocupado pelo chafariz. Tudo isto, repito, em nome do pseudo-progresso.
Normalmente passávamos a noite da missadura em casa da minha tia Estrela, no nº 17. Fazíamos o lume de chão para nos aquecermos e para grelharmos a chouriça, o lombinho e o toucinho das sete carnes. O pingo que escorria das missaduras era cuidadosamente aparado com nacos de pão. Até dava para nos lambermos a comer pão assim.
Por cima das nossas cabeças, o fumeiro - espécie de enfermaria para os enchidos - onde luzidias e gulosas chouriças, morcelas e farinheiras ficavam a curar, aguardando a sua vez da gente se poder repimpar com elas.
Ti Manel Alturas, o meu avô materno, tocava ronca e com a sua voz esganiçada, cantava:
Olha o Deus Menino
Nas palhas deitado,
A comer toicinho
Todo besuntado!
A mesa estava posta para o ritual da comezaina da noite. Pão caseiro, fruta da época, arroz doce e bolos que as mulheres atarefadas preparavam durante todo o dia. Ele era a bolema, o bolo podre, o bolo de laranja e as argolinhas que os mais crescidos empurravam com vinho doce ou com vinho abafado, depois de termos despachado a chouriça, o toucinho e os lombinhos. Tudo acompanhado com brócolos e regado com vinho da adega do Zé da Glória. E sabem o que vos digo? Não me lembro de alguma vez ter ouvido falar em colesterol.
Na lareira, crepitava o madeiro de Natal. Eu passava a noite a brincar ao pé do lume, a ouvir falar e cantar os mais velhos. Só saía dali cerca da meia noite quando me mandavam para a rua ver o Pai Natal entrar pela chaminé. Durante muitos anos não consegui perceber a razão exacta pela qual, o bom do Pai Natal entrava precisamente na altura em que eu saía. Depois de ter percebido isto, os presentes minguaram a olhos vistos. Para vos falar disto é por que sei qual a diferença exacta que há entre os dois natais.
Nesse tempo, eu e os putos como eu, íamos no Verão tomar banho ao tanque da galega, ali na rua do Lavadouro, junto à Fonte do Espírito Santo. Ora, como o tanque era um tanque de lavagem da roupa, muitas vezes tomávamos banho em água de sabão. Outros, mais afoitos, corriam riscos maiores e iam tomar banho aos charcos das pedreiras. Mas os mais audazes eram, os que de noite ou em pleno dia, iam tomar banho ao lago do Gadanha, mesmo nas barbas da polícia, que de chanfalho na mão se aproximava pronta a infligir castigo. E como era giro, ver os putos bater a sola, dar às de Vila Diogo e deixar os polícias para trás, rubros de raiva e impotência.
Vêm-me também à memória as fogueiras dos Santos Populares que se faziam no Largo do Espírito Santo e também na rua do Almeida, entre a Adega do Zé da Glória e a fábrica de refrigerantes do Massano. Se calhar todos sabem que a Adega do Zé da Glória era onde está hoje a Adega do Isaías. Provavelmente já lá foram comer burras assadas. Talvez não saibam é o que é um pirolito de berlinde. Pois eu e os putos como eu, homens que andam por aí hoje na berlinda, sabíamos bem o que era um pirolito de berlinde. Além de dar para arrotar depois de bebido, dava para jogar ao berlinde, pois claro! Nessa época não havia brinquedos com comando a distância, nem computadores, nem joysticks, pelo que jogávamos ao berlinde, aos amalhões, à mosca, à pateira, ao botão e ao peão, pois o software da época não dava para mais. E éramos felizes no território onde o nosso bando era rei e senhor e assim aprendíamos a ser homens.
Foi ali no Largo do Espírito Santo que ao brincar, vi o destemido bombeiro Mário, mobilizado pelo toque de fogo, vir lançado de bicicleta, rua do Mau-Foro abaixo, na gáspea. Falta de travões ou curva mal feita, não sei. O que é verdade é que o bombeiro Mário já não foi apagar o fogo nesse dia. Impávido e sereno, o umbral do portão da Horta do Quiton, metera-lhe a testa para dentro, marcando-lhe o rosto para o resto da vida. Alguém terá dito a propósito: “- Devagar se vai ao longe!”.
No nº 2 – 2º morava o poeta Sebastião da Gama, natural de Azeitão e que viera para Estremoz em 1950, como professor efectivo da Escola Industrial e Comercial de Estremoz e que estabeleceu uma forte ligação afectiva com a nossa cidade, patente nos seus Poemas e no seu Diário.
Sebastião da Gama sofria de tuberculose renal, diagnosticada muito cedo e tinha consciência que ia ter uma morte prematura, por isso amou a vida e a natureza intensamente, o que se reflectiu nos seus escritos.
A 5 de Fevereiro de 1952 deixaria para sempre o Largo do Espírito Santo, 2 – 2.º, rumo ao Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, onde viria a falecer após 2 dias de intensa agonia. Lembro-me desse fatídico dia 5 de Fevereiro de 1952, como se fosse hoje. Lembro-me de ele, meu vizinho, partir para uma viagem sem regresso.
Eu, hoje com 62 anos, um metro e noventa de altura e mais de cem quilos de peso, era um puto que usava bibe e andava numa Mestra, a Menina Teresinha, percursora das actuais Educadoras de Infância e que dava Escola no nº 1, nos baixos da Casa de Sebastião da Gama.
Eu, que na época tinha veleidades ciclistas, andava de triciclo no passeio em frente da Casa de Sebastião da Gama, que me conhecia muitíssimo bem e que por vezes me fazia uma festa na cabeça, como se faz aos miúdos, sem maldade alguma.
Ainda guardo um desdobrável impresso a sépia com a sua foto e uma cabeça de Cristo crucificado, com poemas seus, que após a sua morte, foi oferecido aos amigos e aos vizinhos, em Sua Memória.
Hoje, estou aqui a falar dele e do Largo que ele tanto amava. Cinquenta e seis anos depois, é uma modesta, mas sentida evocação do puto-ciclista que impunemente andava de triciclo frente à sua casa. E que ao contrário do que Veloso ouviu de Camões no Canto V dos Lusíadas, jura que nunca ouviu do Poeta o comentário: - "Ouve lá, Hernâni amigo, este passeio é melhor de descer que de subir!".
É altura de terminar que a prosa já vai longa e a paciência dos ouvintes/leitores é inversamente proporcional ao tamanho do texto, pelo que para terminar pergunto:
- “Quem é o espírito que acode ao largo?”
MEMÓRIAS DO ESPÍRITO SANTO
Trata-se de uma Mostra Colectiva de Fotografia de Estremoz, onde se relata a agonia de um Largo que já foi um dos ex-líbris da nossa cidade e onde cabem fotografias de amador e desenhos de Cruz Louro, enquadrados por fotografias de Waloski, Rogério de Carvalho e Tony, que foram grandes repórteres de Estremoz na sua época. A reportagem fotográfica do Largo na actualidade, data de há cerca de quinze dias e é da autoria de José Cartaxo, que é na actualidade um grande repórter de Estremoz.
MEMÓRIAS DO ESPÍRITO SANTO” teve ainda uma componente poética, que assumiu duas vertentes. Por um lado, a iniciativa “SENTEM-SE À MESA DA POESIA”, onde foi disponibilizada ao público, a leitura de poesia sobre o Largo do Espírito Santo e sobre Sebastião da Gama. Por outro lado, a leitura de textos sobre o Largo (Hernâni Matos) e sobre Sebastião da Gama (António Simões), completada pela declamação de Poesia de Sebastião da Gama sobre o Largo (Fátima Crujo) ou de autores locais (Mateus Maçaneiro, Renato Valadeiro, Manuel Gomes e Constantina Babau) sobre Sebastião da Gama e sobre o Largo.
Pensamos que esta Sinestesia entre Literatura e Fotografia seja da máxima eficácia no despertar de sinergias colectivas, visando restituir o Largo do Espírito Santo à sua antiga dignidade, ainda que adequada aos tempos de hoje.
A Exposição "MEMÓRIAS DO ESPÍRITO SANTO", que é uma iniciativa da Associação Filatélica Alentejana e conta com o apoio da Câmara Municipal de Estremoz, estará patente ao público até ao próximo dia 27 de Junho, podendo ser visitada, de 3ª feira a sábado, entre as 9 e as 12 horas e entre as 14 e as 17,30 horas. Uma Exposição a merecer a visita de todos nós.